Ricardo Mota
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21/04/2014

Justiça quebra sigilo bancário e fiscal de 105 funcionários da Assembleia

O número é expressivo. Nada menos do que 105 servidores da Assembleia Legislativa – das listas encaminhadas pela Caixa Econômica Federal ao deputado JHC – terão seus sigilos bancário e fiscal quebrados.

A decisão da Justiça, da semana passada, foi tomada a pedido do Ministério Público Estadual.

Tudo vem sendo feito de forma sigilosa, mas permanente.

Os nomes que constam da lista – não divulgada por motivos óbvios – foram definidos após uma avaliação demorada e criteriosa, de acordo com um integrante da força-tarefa do MP que se dedica ao trabalho – para evitar que fossem cometidas injustiças.

O indício principal de irregularidade é a movimentação financeira atípica dos beneficiários de depósitos feitos pela Assembleia Legislativa. Ou seja: as pessoas que terão seus sigilos quebrados receberam vários “pagamentos” da Casa de Tavares Bastos.

Um detalhe fundamental: todos os nomes que constam da relação foram identificados aos respectivos padrinhos. Dá para imaginar o trabalho na realização do cruzamento das folhas de pagamento, dos nomes de funcionários dos gabinetes parlamentares e dos valores pagos (apesar do auxílio tecnológico).  

Esta é, provavelmente, a fase mais complicada da investigação que o Ministério Público Estadual vem realizando na Assembleia Legislativa. E ocorreu durante o período em que se discutia o corte do orçamento da instituição.

O blog fez contato com integrantes do MPE e do Judiciário, mas ninguém quis se pronunciar sobre a questão, que tramita em sigilo.

Postado às 8:35, Ricardo Mota 51 comentários postado em Geral |
20/04/2014

Beleza lacerada

 

“Eu vejo as pernas de louça/da moça que passa e não posso parar” e me dou por satisfeito: a vida continua a aprontar. Ninguém fica indiferente à beleza. Eu, velho timoneiro de mim mesmo, hei de também perder o rumo do Norte, ainda que a bússola me reponha no bom caminho rapidamente.

Entre o encantamento e a fúria vivem os que carregam os traços pincelados de forma tão exata quanto especial, a ponto de se ressaltarem em meio à multidão.

Na semana passada, em São Paulo, uma garota de quinze anos de idade foi agredida de maneira estúpida por ser dona de uma rara beleza. Não havia nela a arrogância de quem se basta a si mesma, asseguraram os que a conheciam. Que motivação existiria, então, para que provocasse a ânsia de vingança de colegas menos afortunadas?

Estamos diante de um bom embate da alma, mais até do que do corpo: não suportamos os que nos parecem próximos da perfeição e tão distantes do que somos.

É verdade que os padrões de beleza mudam com o tempo. Seja o tempo histórico, seja o de uma só existência. Se as mulheres angulosas e bem fornidas já foram o objeto de desejo dos homens, musas dos mestres do pincel, hoje as longilíneas e descarnadas se tornaram o modelo a ser cultuado.

Amanhã, quem haverá de saber?

O poetinha Vinicius de Moraes nunca foi perdoado pelas feministas fundamentalistas por causa de um único verso, escrito com a verve dos que usam as palavras com a sutileza e a integralidade que elas possuem: “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental” (Receita de mulher). Vivesse mais cem anos, não seria capaz de tirar a literalidade das cabeças em ruínas.

Beleza, sim, é fundamental. Descobri-la em quem não a tem tão aparente foi uma obra a que se dedicou sem tréguas o “único poeta que viveu como poeta”, na definição de Carlos Drummond de Andrade.

Não que Vinicius não houvesse tido em seus braços mulheres muito bonitas – teve-as. Outras, nem tanto. Mas quem há de dizer que estas foram menos amadas do que aquelas?

Não estamos aptos a prever se a garota cruelmente lacerada no rosto de finos traços será uma bela mulher. Se assim for, terá cumprido um destino de poucas, a suscitar sempre as inevitáveis comparações – e delas nós vivemos. Os sentimentos que despertará serão os de sempre: admiração e despeito.

A maturidade pode nos fazer encontrar outros recantos onde a beleza se esconde. E será ali, onde a vista nem sempre alcança, que ela estará guardada, reservando-se aos olhos que, embora cansados, ainda se permitem a descoberta.

E sem que desperte inveja ou cobiça, a beleza estará finalmente livre da sanha dos que não toleram vê-la e não tê-la.

 

 

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19/04/2014

Trabalhadores do Grupo JL se revoltam contra administradores da massa falida

Os trabalhadores do escritório central do Grupo JL, em Maceió, estão profundamente revoltados com os administradores da massa falida – Ademar Fiel à frente.

Eles, assim como os trabalhadores demitidos no mês passado, estão sem receber salários. Março, até agora, não foi quitado nem há informações de quando isto irá acontecer.

O motivo do protesto é porque os três administradores nomeados pela Justiça continuam recebendo seus pagamentos normalmente. Os valores, ao que parecem, são variados.

Na semana que está terminando, às vésperas do feriadão, cada um recebeu – garantem os funcionários do escritório central – nada menos do que R$ 25 mil.

Convenhamos: não parece nada justo o encaminhamento da divisão do bolo. Ou o que dele restou.

Desta vez, até JL protestou. Ao que parece, tarde demais.

Para os trabalhadores e fornecedores, principalmente.

Postado às 9:26, Ricardo Mota 10 comentários postado em Geral |
19/04/2014

A Páscoa do Pife (pelo próprio)

  Por Osvaldo Epifânio

Como, a Páscoa?

Existe um valor raro na Páscoa: livrar-se dos próprios medos.

Principalmente um, em especial: o medo das concessões.

Este exige alguns sacrifícios.

Tais como: entender, compreender, renunciar,  disfarçar, rir para agradar, retirar-se sem provocar, calar para não irritar, ouvir para refletir, olhar em oblíquo, suar sem denunciar a raiva,  murmurar para não gritar, tergiversar sem enganar,  piscar o olho sem ser notado,  retrair-se, observar as contendas,  permitir-se, evitar os impulsos, solidarizar-se, expulsar os ressentimentos, atualizar as estratégias, ter paciência, esperar pelo momento certo, ter gosto pela amizade, saborear uns instantes de otimismo,  deixar-se levar pelas paixões, abraçar as causas,  aproveitar a solidão,  purificar as indecências, soltar piadas dos infortúnios, retomar as energias, entregar-se aos desejos dos seus prazeres,  fazer uns versos, curtir a palavra verdadeira dos amantes, viver sem precipitações, sair à francesa, ouvir um palpite, gostar de recomeçar,  contemplar um poema, pedir licença,  soltar a voz, dar um susto no pessimismo, animar-se, perceber-se capaz,  sonhar em ser o impossível,  compartilhar os sonhos,  ter o que fazer num domingo,  ouvir de tudo um pouco, enfrentar os desafios, morrer de amor, viver ser dor, aquietar-se, escorar-se num ombro, chorar sem vergonha, restaurar as memórias, ter saudades das lembranças, saber que hoje é Páscoa: um dia para esperar que a ressurreição não é nova vida, mas um novo homem, uma nova mulher.

Mesmo que os sentidos digam que isso só será possível da próxima vez.

 

Postado às 9:25, Ricardo Mota 2 comentários postado em Geral |
19/04/2014

O dia em que os Correios quase me matam de vergonha

O escritor Antônio Torres, além de um mestre das palavras, é o que se pode chamar de homem gentil e cordial, um tipo cada vez mais escasso.

Entrevistei o autor de Um taxi para Viena d’Áustria e Essa Terra, dois clássicos da literatura brasileira – com tradução em vários idiomas – há alguns anos, já nem me lembro bem.

Desde então, tenho sido alvo de suas delicadezas, coisas que vão se tornando raras e caras: envia-me os livros que lança, algumas matérias sobre o seu trabalho, enfim, dá sinais vitais da sua generosa formação.

Eis que na última terça-feira, dia 15 de abril, recebo um envelope da Academia Brasileira de Letras com um convite: novo membro da ABL, Antônio Torres tomaria posse na cadeira que conquistou por méritos.

Tomaria, não – tomou. Sim, porque a solenidade para a qual fui convidado, ainda que não pudesse ir, ocorreu no dia 9 de abril, seis dias antes de ter em mãos o tal convite.

Irritado, leio a data em que foi postada no correio a correspondência: 28 de março de 2014, na Agência Itaipava, em Petrópolis. É o que está no carimbo.

Os Correios, portanto, impediram que um filho de telegrafistas – meu pai trabalhou na empresa por 36 anos – pudesse dar uma demonstração de que havia recebido uma boa educação, enviando-lhe um telegrama de congratulações e agradecimento.

Coisa simples, mas que revela urbanidade.

Infelizmente não pude fazê-lo e tive de amargar minha vergonha.

Os Correios vivem sua fase de desmoralização e destruição, esperando que em breve se agreguem à empresa a Petrobras, a Eletrobras, o IPEA, o IBGE.

Ante o silêncio cúmplice das grandes centrais sindicais, hoje alimentadas por centenas de milhões de reais dos impostos que pagamos.

Conto aqui esta mágoa na esperança de que alguém – um amigo, um parente – diga ao escritor Antônio Torres que em Alagoas mora também a gratidão.

(E, cá para nós: de que adiantaria ter enviado um telegrama, se não chegaria a tempo?)

 

Postado às 7:01, Ricardo Mota 43 comentários postado em Geral |
18/04/2014

A sexta-feira do silêncio e da gula

A cada ano eu já sabia como me comportar na sexta-feira da Semana Santa. O melhor era manter o silêncio – tanto quanto era possível para um garoto cheio de energia e louco para aproveitar o feriado. Acho que de certa forma já havia absorvido um tanto da visão utilitarista que toda religião oferece aos seus seguidores:

-Faz isso e terás aquilo.

Então, nada de jogar bola, correr, disputar qualquer tipo de jogo. Eram atividades em que, inevitavelmente, sempre saía um palavrão. Mas na Sexta-feira da Paixão? De jeito nenhum. Eu sentia que olhos enormes me observavam a cada gesto ou palavra e não queria a desaprovação. Silêncio, portanto. Já bastava ouvir as emissoras de rádio, que não tocavam música cantada nesse dia, mas apresentavam, durante toda a programação, a vida de Jesus Cristo – em capítulos, levados ao ar periodicamente (não lembro se a cada meia hora, ou de hora em hora) -, a que ouvia sinceramente compungido.

Mas aquele dia sisudo tinha a sua compensação: era o almoço especial, próprio da época. Devorávamos, os cinco irmãos, o peixe ao coco, arroz ao coco, feijão ao coco e/ou outras “variações sobre o mesmo tema”. Tudo com o tempero especial de dona Lucinha, que nada fazia que não desejássemos mais e mais. O seu maior fã? Seu Luiz Mota, que repetia o prato à exaustão.

Depois, veio a adolescência e com ela a descoberta dos pecados da carne. E a constatação de que a vida sem eles perdia um tanto da sua graça – e tão curta é a vida (a não ser para os que esperam a eternidade, não sendo o meu caso). A Sexta-feira Santa passou a ser véspera do Sábado de Aleluia, dia de baile nos clubes, uma festa de carnaval fora de época.

Os dois imensos olhos já não acompanhavam os meus passos, e eu desaprendi até a negociar com Deus (o que Machado de Assis mostra, tão brilhantemente, em Memórias Póstumas de Brás Cubas). Não sei se pior, ou se melhor, eu me fiz adulto.

Espero estar nesta sexta-feira, mais uma vez, a degustar aquelas maravilhosas comidas ao coco, temperadas por dona Lucinha. Há de ser um “banquete” dos deuses. Lamento não poder dividir os deliciosos pratos com meus mais queridos ausentes; e não ver na cabeceira da mesa aquele senhor de cabelos brancos, riso fácil e a disposição para, ao fim do almoço, arrematar com seis laranjas-lima, “porque ajuda na digestão”.

Postado às 7:01, Ricardo Mota 10 comentários postado em Geral |

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