O senador Renan Calheiros se reuniu, ontem, em Brasília, com a deputada Rosinha da Adefal. Ela estava acompanhada pelo presidente nacional do PT do B, Luiz Tibé, e pelo presidente regional da legenda, Marcos Toledo.
O tema: as eleições em Maceió.
Calheiros afirmou, segundo Toledo, que “se sente à vontade para apoiar a candidatura da deputada à prefeitura de Maceió. Desde que ela unifique o grupo do qual o PMDB faz parte. E diante do novo quadro, nos disse o senador, ela tem grande chance de consegui-lo”.
Com base em quê? “Nas últimas pesquisas realizadas junto ao eleitorado da capital”.
A decisão do PMDB sobre o tema dever sair no mês de abril.
- O mais importante para nós é que o senador acenou claramente com o apoio do PMDB à candidatura da deputada Rosinha. A aliança ainda não está fechada, mas as possibilidades estão claras.
O partido de Calheiros tem um pré-candidato, Mosart Amaral, considerado pelos peemedebistas “um desconhecido” para a população de Maceió. Poderia, no caso, ser candidato a vice.
O que mais incomoda, hoje, o líder do PMDB no Senado é a candidatura do deputado João Lyra, do PSD. Ligado ao prefeito Cícero Almeida - embora momentaneamente afastados -, o apoio de JL a um outro candidato do chapão é considerado fundamental – ele ajudaria a viabilizá-la materialmente.
E sobre Ronaldo Lessa? “Não tocamos no nome dele na conversa”, disse Toledo.
O comportamento dos parlamentares locais diante dos humoristas da Band foi o que se esperava: provinciano, defensivo, sem jogo de cintura e, às vezes, até ríspido.
Os programas do tipo CQC têm feito grande sucesso, principalmente no público juvenil, que acredita cada vez menos no Poder Público e em seus operadores.
É o que acontece no mundo inteiro (ler Eric Hobsbawn: “Globalização, democracia e terrorismo”), hoje carente de estadistas que mereçam este nome.
Melhor que seja o humor, uma arma poderosa, a deixar em ruínas política e políticos. Grave seria se fosse o discurso fascistóide que defende “o povo no poder”, sendo o inflamado orador o próprio povo.
No mais, Congresso Nacional, Assembleia e Câmara de Vereadores já são piadas prontas.
E nós ainda rimos.
O deputado federal João Lyra é “um pote até aqui de mágoas” com o prefeito Cícero Almeida.
Motivo: a referência – deselegante – do prefeito à idade avançada de JL como um empecilho a sua candidatura a prefeito de Maceió.
Silenciosa e discretamente, o parlamentar continua construindo pontes com velhos aliados e antigos adversários.
A bola da vez é o senador Benedito de Lira, do PP, que já foi amigo de infância de Almeida – condição que já não carrega desde o ano passado.
Lyra e De Lira têm conversado muito e articulado mais ainda. Seguramente, o prefeito de Maceió deve sentir a orelha queimando.
Se ambos fazem aliança para as eleições de outubro – com repique em 2014?
Quem duvidar há de?
Célia e Collor
Espécie de orientador político de Célia Rocha, o senador Fernando Collor vai viajar com a deputada, no final de semana, pelo Agreste.
Ambos fazem visitas a Arapiraca, Coité do Nóia, São Sebastião e Palmeira dos Índios. O senador tem influência decisiva nas escolhas de Rocha – petebista, como ele – desde os tempos em que era governador de Alagoas.
As três principais cidades do interior de Alagoas se tornaram um problemão para o Palácio República dos Palmares, nas eleições deste ano.
Em Arapiraca, Penedo e Palmeira dos Índios, o grupo governista tem candidatos a prefeito, mas que ainda não se mostraram objetivamente viáveis.
Na maior cidade alagoana – depois de Maceió -, o secretário Rogério Teófilo ainda não provou que pode vir a ser páreo para a deputada Célia Rocha.
Resultado: os palacianos tentam atrair outras lideranças para uma aliança com Teófilo. Além do deputado Ricardo Nezinho, a silenciosa incógnita, a esfinge do Agreste, o radialista Alves Correia é o sonho de consumo do tucanato para uma dobradinha com o secretário de Articulação Política.
Só que há dois problemas: Nezinho ainda sonha que pode vir a ser o candidato de Luciano Barbosa e Célia Rocha – o que dá no mesmo – para disputar a prefeitura de Arapiraca. Difícil: ele não é exatamente um homem da confiança do senador Renan Calheiros e teria de conquistar o aval do ex-presidente Collor, do PTB de Rocha. Sem isso, adeus.
Já Alves Correia, embalado pelas pesquisas e pela notória popularidade ainda não se encantou nem com a proposta de ser vice, nem com a possibilidade de ser candidato a estadual, em 2014, com apoio do tucanato arapiraquense.
Penedo e Palmeira dos Índios vivem situações diferentes.
Nas duas cidades, os prefeitos são do grupo palaciano, mas encontram dificuldades para a reeleição.
No caso de Palmeira dos Índios, o prefeito tucano James Ribeiro é muito mal avaliado pelo eleitorado local. Sua administração é alvo de muitas críticas. De quebra, ele enfrenta Petrúcio Barbosa, que tem “estofo” para a campanha, além do apoio do senador Fernando Collor (ambos são do PTB) e do ex-deputado Cícero Ferro, que conta com alguns cabos eleitorais na cidade.
Patrícia Sampaio, petista, corre por fora. Com apoio de algumas famílias tradicionais na cidade, pode surpreender – o que ainda é muito prematura afirmar categoricamente.
Israel Saldanha, do Democratas, é o prefeito de Penedo. Ele assumiu a vaga de Alexandre Toledo, de quem era vice, quando o titular se afastou para disputar as eleições de 2010.
Engenheiro, discreto, Saldanha é visto como um estranho no ninho. É de pouca conversa, menos ainda, abraços e sorrisos. Refazer esta imagem, de pouca simpatia, não é uma tarefa fácil.
Rui França, secretário Estadual de Comunicação, pode assumir a missão. Pode ser tarde demais.
Por lá, Marcius Beltrão, sobrinho do deputado João Beltrão, já trabalha sua candidatura desde quando perdeu a eleição de 2008. Em tempo: tem grande popularidade, principalmente na periferia penedense.
Mesmo sem a convicção de que será, de fato, o candidato do Palácio República dos Palmares à prefeitura de Maceió, o deputado federal Rui Palmeira tem usado a conversa com adversários e aliados para debater as eleições deste ano.
Na semana passada, ele convidou o deputado Jéferson Moraes para uma rodada sobre tema, uma conversa informal e reservada.
Não será a primeira: desde o final do ano passado, Palmeira já conversou sobre eleições em Maceió com: Carimbão, Rosinha da Adefal, Judson Cabral e JL – sim, ele mesmo. Todos são potenciais candidatos ao posto ocupado por Cícero Almeida há quase oito anos.
O que vai sair daí? Não sei. Mas pode ser importante não confundir adversário com inimigo.
Uma questão de bom senso
A licitação é uma ideia falida, um paciente mantido vivo em estado vegetativo porque simplesmente não sabemos como agir se ele se for. Ela sobrevive como uma homenagem que o vício presta à virtude, amparada no senso comum de que “ruim com ela, pior sem ela”. O único argumento para conservar a atual lei de licitações é o de que a sua extinção favorece os corruptos e sua manutenção, os honestos. Desmontarei, a seguir, um argumento e outro.
A justificativa para a lei de licitações é a de que ela oferece uma barreira real às negociatas, correto? Não. A lei de licitações é burocrática, prenhe em questões de lana caprina e mais intrincada que manual de forno de micro-ondas. É acessível apenas a especialistas, como promotores, procuradores, auditores, controladores, consultores, escritores e quadrilhas especializadasem burlá-la. Osmilhares de pequenos municípios não possuem gente preparada para conduzir uma licitação. Elas são entregues, então, a escritórios e consultorias especializadas da capital que, não raro, montam todo o processo licitatório dentro de seus gabinetes. Que espécie de lei é essa que, a pretexto de garantir transparência, é imperscrutável para a maioria das pessoas?
Nas grandes licitações, há poucas empresas aptas a concorrer. Por que iriam se digladiar se o enorme território nacional pode ser fatiado entre elas? Preferiram garantir o seu quinhão e nenhuma entra no quintal alheio, a não ser como figurante, para dar um verniz de concorrência à licitação. Fornecimento de merendas, combustíveis, limpeza urbana, transporte público, o território brasileiro foi loteado entre os concorrentes e o resultado é decidido antes, em mesas de negociações das quais participam somente os fornecedores. O pior é que esta prática se estendeu às licitações médias, que são a maioria e que envolvem milhões de reais.
Uma vez que a prática de combinar preço em licitações tornou-se comum, os cargos de terceiro escalão do setor de compras passaram a ser cobiçados pelos partidos políticos, de olho nas oportunidades de financiamento de campanhas. O “pedágio” nas licitações tornou-se frequente e o percentual cada ano aumenta, pois quanto mais dinheiro se gasta em campanhas, mais cara elas ficam. Os contratos públicos estão bem mais caros que os preços praticados no mercado. O alto custo das campanhas eleitorais é o calcanhar de Aquiles das democracias de massa nos países com dimensão continental. O empresário empreendedor é uma peça essencial nas democracias capitalistas. Mas esperar que um homem desses, tão achegado ao lucro a ponto de arriscar sua fortuna diariamente, doe milhões às campanhas por puro altruísmo ou diletantismo é imaginar que o leão irá se compadecer da zebra. Um empresário poderia dizer honestamente que investiu na campanha de determinado candidato porque quer uma oportunidade para fazer negócios com a administração pública, mas isso não é permitido. Então, as decisões são tomadas nos gabinetes de repartição e quartos de hotéis, onde se discute assuntos pouco republicanos, pois, como dizia Louis D. Brandeis, o sol é o melhor desinfetante que existe.
Poder-se-ia argumentar que sem licitação seria pior. Será? O direito tem suas idiossincrasias. O leitor incauto que vê as imagens fortes da propaganda contra os males do fumo estampadas nas carteiras de cigarro, imagina que elas estão lá para proteger o consumidor. Na verdade, elas têm servido para isentar as empresas de qualquer responsabilidade nas ações movidas por ex-fumantes com câncer. As empresas dizem: – nós avisamos que fazia mal, você não viu as imagens? Se o gestor público escolhesse seu fornecedor diretamente, assinaria um contrato intuito personae e poderia ser responsabilizado solidariamente pela sua execução. A licitação blinda o gestor contra qualquer acusação. Ele pode simplesmente dizer que não foi ele quem escolheu o fornecedor. Ou seja, para o desonesto é preferível uma licitação fraudada à ausência de licitação. Se o Congresso Nacional propuser o fim das licitações, haverá uma grita do poderosíssimo lobby das quadrilhas especializadas em fraudá-las, pois hoje não só os tubarões, mas até as rêmoras mordiscam um bom dinheiro.
Além de blindar o gestor desonesto contra condenações por improbidade, oferecendo-lhe uma demão de boa-fé, a lei de licitações lhe fornece inúmeras brechas legais para fraudes. Existe a figura do “mergulhador”, que é o fornecedor bem relacionado. Ele irá baixar seus preços ao ponto da inexequibilidade, para vencer a licitação. Meses depois seu contrato será reajustado em vinte e cinco por cento, limite que a lei permite, e voilá: o que era mais barato ficou mais caro! Pouca gente sabe, mas a lei de licitações permite a cessão total ou parcial do contrato. Muitos gestores negociam com a licitante vencedora a cessão de até vinte por cento do contrato para uma empresa de sua confiança, que só irá receber sua parte, sem prestar efetivamente serviço algum. É uma forma de batizar a propina. O Estatuto das Microempresas (Lei Complementar nº 123) admite que o gestor exija da licitante vencedora a subcontratação de até trinta por cento do valor do contrato (art. 48, III) para uma empresa de pequeno porte, certamente indicada por ele, com a vantagem adicional de que o empenho e o pagamento podem ser feitos diretamente à subcontratada. Em suma, nenhum mau gestor quererá o fim da licitação, porque a licitação é a beatificação do ilícito.
Enfim, foi demonstrado que o gestor desonesto tem mais a ganhar com a licitação do que sem ela. O leitor poderá concluir que ao menos a licitação ajuda o honesto. Ledo engano. Para o gestor honesto, a licitação é uma maldição disfarçada de benção. Se ele não for da área jurídica, não entenderá patavina da lei; se for, pensará que entende. Terá dificuldade em encontrar servidor que domine o tema e se o encontrar, ficará à mercê dele. Sua honestidade será irrelevante para o conluio entre fornecedores. O efeito prático da sua não participação é economizar o dinheiro da propina. Se se atrever a fazer licitações honestas a máfia o acuará. Há recursos administrativos, impugnações de edital, de proposta, liminares judiciais e infindáveis maneiras de atrasar uma licitação ad aeternum. O pobre gestor honesto terminará seu mandato sem comprar um parafuso. Curiosamente, a licitação pretende garantir a impessoalidade nos contratos, cuja base é, justamente, a confiança. O gestor deverá contratar quem não conhece. Não se admire se uma fábrica de pregos ganhar uma licitação para importação de arenques.
O resultado das licitações são uma babel. O posto de gasolina que venceu a licitação fica a vinte quilômetros da repartição pública, obrigando os carros a se deslocarem, quando há um posto logo na esquina vendendo gasolina por um centavo a mais. Escolas do interior não podem comprar produtos frescos da mercearia da esquina porque quem venceu a licitação pra fornecer merenda foi uma empresa de São Paulo, que trará a mercadoria de caminhão e certamente com atraso.
A dispensa de licitação pelo valor é ridícula: cerca de oito mil reais para serviços e compras e quinze mil para obras e isso corresponde ao valor de um ano! Muitas famílias gastam mais do que isso por ano com feira e se tivessem que fazer licitação para saber em qual supermercado comprar provavelmente passariam fome. Já o gestor tem que se submeter a esse martírio diuturnamente e deve ficar atento, pois se a soma das aquisições anuais, segundo o gênero, ultrapassar esse limite pífio, ele será acusado de fracionar despesas com o intuito de burlar a licitação, o que, além de improbidade, é crime, punível com pena de três a cinco anos de detenção. A consequência é a concentração das despesas públicas nas mãos de poucos, quando o ideal é que fosse pulverizada. Podemos ver isso nas escolas públicas e nos postos de saúde, onde nada funciona: falta seringa, luvas cirúrgicas, medicamentos, água mineral, papel higiênico, giz, as coisas mais triviais. Nada se faz, ar-condicionados ficam parados por meses, não se substitui um vidro quebrado, tudo à espera da licitação, porque tudo se multiplica por doze meses e um erro de cálculo fará de um gestor honesto um criminoso. Um sujeito precavido não quer ser ordenador de despesas nessas condições, então todas as licitações, compras e aquisições concentram-se nas secretarias. Os secretários, por seu turno, apelam ao governante, que assina com eles todas as homologações de licitação e contratos administrativos, em tal número que são a perder de vista. Por conta disso, arrisco dizer que ao fim do mandato serão raros os governantes e secretários que se safarão de uma ação por improbidade.
Além de não ajudar o honesto, nem atrapalhar o desonesto, a licitação ainda deixou os órgãos de fiscalização preguiçosos. Todo o esforço está concentrado em fiscalizar a fase de escolha, pouca atenção se dá ao sobrepreço e menos ainda à fase de execução. É como se a licitação em si purgasse o ilícito. O resultado são canetas que não escrevem, grampeadores que não grampeiam e toda a sorte de quinquilharias de péssima qualidade com o menor preço. As empreitadas são ainda piores: asfaltos de má qualidade, escolas imprestáveis, postos de saúde inservíveis, nem o sistema prisional respeitam – há presídios Brasil afora cujas instalações, de tão vulneráveis, mereciam que o construtor as terminasse por dentro, de modo que quando colocasse a última lajota, por lá mesmo ficasse.
MARCUS RÔMULO MAIA DE MELLO é promotor de justiça, da promotoria de defesa do patrimônio público de Maceió-AL.



