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27/06/2011 Por que o caso Giovanna não é igual ao Fábio Acioli

Já há uma opinião majoritária entre os alagoanos que acompanham o noticiário cotidiano: o caso Giovanna terá o mesmo destino das investigações do brutal assassinato do estudante Fábio Acioli, que completará dois anos em agosto. 

Há várias diferenças entre ambos, mas antes de apontar pelo menos algumas, não podemos nos esquecer: há dois presos, acusados de serem os autores materiais do crime que vitimou o rapaz de 21 anos de idade. Mas quem foi o mandante? 

No imaginário popular, este caso está solucionadíssimo, não houvesse, quando da ocorrência, um grande número de “acusados” (eis a primeira grande diferença com o crime da estudante de Fisioterapia): eram magistrados e/ou grandes empresários. Houve até quem advogasse a tese de que havia vários “mandantes”.

Na atual investigação, só veio a público uma única suspeita, e graças, principalmente, a atuação exuberante dos dois destacadas advogados criminalistas envolvidos no caso. Foram eles, até agora, os principais personagens da mídia no que se refere ao covarde assassinato da jovem. 

Eis outra acentuada diferença com o caso Fábio Acioli. Então, em 2009, as três delegadas responsáveis pela investigação eram impelidas a conceder entrevista coletiva a todo e qualquer ato da investigação. Pagaram pela inexperiência, porque o senso comum firmou a convicção de que o autor (ou autores) intelectual do crime era gente de grana, inacessível, portanto.

Mesmo levando em conta que até hoje a Justiça não recebeu da empresa americana os dados do computador do estudante, ainda assim, a exposição da polícia no episódio em nada ajudou a apurar o crime.

Agora, mais uma vez, o advogado Welton Roberto cobra, publicamente, esclarecimentos do delegado Francisco Amorim Terceiro, à frente do caso Giovanna (e a corda, doutor Welton?). Não conheço a autoridade policial que preside o inquérito, mas simpatizo com sua discrição. Já há “espetáculo” demais no nosso cotidiano.

Temos de compreender a ansiedade da família da jovem. A tristeza, a saudade e a sensação de injustiça levariam qualquer um a exigir uma solução rápida e cristalina. 

Mas nem sempre é este o caminho a ser justamente trilhado pela polícia. O caso PC está aí, ainda “vivo”, a cobrar das autoridades policiais de Alagoas uma explicação menos rasa sobre o acontecimento.

Lembremos: à primeira olhadela, o delegado Cícero Torres afirmou sem qualquer dúvida (com o apoio manifesto do seu superior, Rubens Quintela): “Foi um crime passional”. Foi?

Uma versão que a Justiça até hoje não acatou. Teremos mais um capítulo dessa novela trágica em breve. E ainda não será o desfecho, tenho certeza. Este ficará para os livros de História.

Postado às 11:09, Ricardo Mota 29 comentários postado em Geral |
26/06/2011 O mundo cão de dona Dalva

 

Dona Dalva nunca foi uma mulher de fino trato. Poderia ser bem definida, ao modo mais popular, como uma autêntica “barraqueira”. Qualquer pequeno deslize de um garoto da sua rua, coisa de menino, mesmo, para ela seria imperdoável, e aí sobrava desaforo para toda a família do indigitado.

Não seria novidade, aqui ou em qualquer lugar do mundo, que dona Dalva tivesse tão poucos conhecidos com quem trocasse mais do que duas ou três palavras. Dava medo, é verdade, encará-la em seus trajes permanentemente desleixados, rotos até, cabelos em camadas de diferentes cores, que se acumularam no tempo, e o seu ar de quem estava sempre pronta para o embate.

Sua ira mais santa, entretanto, ela destinava àqueles que liberavam, um naco que fosse, da nossa inata perversidade aos cães. Rabugentos, fedorentos, vira-latas que andam em bando, para todos tinha um carinho especial, que só dedicara - se eu errar, não será por muito - aos filhos, quando bem pequenos.

Depois, todos crescidos e já acostumados aos arroubos e impropérios da maltratada personagem, já nem lhe dirigiam palavra, a mais banal que fosse. Entravam e saíam de casa apenas com os ruídos dos próprios passos. Dona Dalva, aos poucos, havia se tornado um móvel, um utensílio de cozinha, se muito.

Só não, é claro, para as dezenas de cachorros que empestavam o ambiente. Na maioria, chegaram ali pelas mãos grossas e calejadas da velha senhora. Encontravam bom rancho, com comida farta e um cantinho para o cochilo.

O marido, boêmio inveterado de muitos copos e não menos amores, fazia ouvidos moucos para a latomia diária. Era chegar em casa, bem tarde, e desabar sobre a cama – já não reconheceria o corpo  que em tempos passados lhe arrancara suspiros e desejos. Nos finais de semana, nas poucas horas em que permanecia no “lar”, o homem do mundo cuidava de seus pássaros raros, a única coisa a que dedicava alguma atenção no seu dormitório.

E foram estas pequenas e coloridas aves que puderam, de novo, ir em busca da linha do horizonte num dia de fúria de dona Dalva. A vizinhança testemunhou o seu discurso libertário: “Se eram pra ficar nas gaiolas, tinham nascido sem asas”. Os gritos de “vingança, vingança, vingança” do marido traído ecoaram no ar, numa indigesta disputa de audiência com os vira-latas, alvo dos seus iracundos pontapés quando cruzavam o seu caminho - construído em zigue-zagues originais  a cada noite.

O mundo havia se acostumado com dona Dalva, mas ela, assim parecia, não tinha o mesmo sentimento para com o que a cercava. Exceção, obviamente, para a cachorrada.

Quando eles iniciavam, em coro, o ganido em timbres tão diversos, era sinal de que a mulher de modos brutos não estava em casa. E a vizinhança que suportasse a gritaria desesperada dos órfãos de dona Dalva.

Finalzinho de tarde, passo pela sua calçada. O barulho era insuportável, alternando agudos e graves mais longos. Imaginei (e lamentei momentaneamente): ela está ausente.  Mas o silêncio desabou de forma abrupta, de repente, inexplicável. Olhei pelas brechas do portão da casa e a supreendi arrodeada pelos animais, todos de olhos atentos e cabeça baixa, como meninos ao receber, carregados de culpa, a reprimenda materna. Parei para tentar ouvir o que ela dizia, porque ela de fato dizia algo, e com insuspeitos gestos suaves.

Apurei a audição, ao modo “tuberculoso” do século XVIII, e demorei a compreender o que se passava: dona Dalva latia bem baixinho, quase em sussurro, como uma mãe que conta uma história aos filhos – e eram tantos. O danado era que eles entendiam, assim me pareceu, cada latido.

Estava ali um instante de ternura e delicadeza que a natureza não haveria de ver com desgosto.

Postado às 5:00, Ricardo Mota 38 comentários postado em Geral |
24/06/2011 “Meu nome é Johnny”

Os adesivos preparatórios para 2012 já estão circulando nas ruas de todo o estado. Com os nomes dos futuros candidatos ou com seus slogans de campanha. E não são poucos (já vi um adesivo com a frase estampada no título).

Há também muros pintados, faixas estampando a intenção dos que buscam um cargo eletivo no próximo ano. Entretanto, como os beneficiários não dizem a que vão se candidatar, a evidente propaganda não é assim considerada pela Justiça Eleitoral – ou foi assim até agora. A interpretação: é promoção pessoal. Bobinhos!

É verdade que muitos políticos com mandato nunca deixaram de “lembrar” aos eleitores que são eternamente candidatos. Quem nunca viu – impossível sem levar um susto – carros com adesivos com a inscrição “Amo Alagoas”, ou “Sou amigo do Cícero Ferro”? E me refiro aos dias de hoje, quando as eleições estaduais já aconteceram – e faz tempo.

Em publicidade isso é chamado de teaser, uma preparação para uma campanha que vem por aí.

E por que é permitido? A Lei Eleitoral é interpretada pelos ministros do TSE, a cada eleição, com uma versão diferente. Neste caso, se há como fazer a relação entre causa e efeito, por que não entendê-la sem o faz de conta que tem marcado a questão? Obviamente, quem sai na frente leva vantagem sobre os demais candidatos.  

Como o Tribunal Superior eleitoral muda a sua composição regularmente, assim como o TRE de cada estado, é possível que a farra venha a ter um final em 2012. Até mesmo para quem, de fato, se chama Johnny.

(A que cargo seria candidato tal personagem?)

Postado às 20:32, Ricardo Mota 9 comentários postado em Geral |
24/06/2011 Luna quer marcar gestão na SMTT com licitação dos ônibus

O delegado José Pinto de Luna conheceu seus dias de glória em Alagoas, quando foi superintendente da PF, no período de maior atuação da instituição no estado. 

Depois, na SMTT, soube também o que é dirigir um órgão público municipal sem as condições objetivas de resolver os problemas que se apresentam. 

Pretende, agora, marcar sua passagem pela prefeitura de Maceió com um feito: ter realizado a primeira licitação dos ônibus de Maceió. “Eu quero que seja essa a a maior herança que eu vou deixar aqui”. 

No dia 8 de julho, a SMTT estará realizando uma audiência pública para discutir o edital de licitação do transporte coletivo urbano de Maceió. Luna garante que todo mundo terá voz.

Tomara que, no final, todos também tenham vez, principalmente os usuários do péssimo serviço de ônibus da capital.

A licitação é um passo histórico e importante, mas é apenas o começo de uma mudança que precisa ser radical.

Postado às 10:16, Ricardo Mota 28 comentários postado em Geral |
24/06/2011 Olavo Calheiros pode disputar prefeitura de Murici

O deputado estadual Olavo Calheiros, do PMDB, pode surpreender, de novo, nas eleições do próximo ano. Embora sem gostar muito de campanhas eleitorais, não é o seu forte, Calheiros já é apontado como postulante à prefeitura de Murici, sua terra natal. 

No ano passado, de última hora, o hoje deputado estadual, resolver mudar o seu rumo político( o que este blog havia antecipado). Com cinco mandatos, então, na Câmara Federal, ele “cedeu” a vaga ao sobrinho, Renan Filho, e voltou a Alagoas. 

Ao que parece, o caminho da volta continua. Olavo – assim como Renan e Renildo, os irmãos mais conhecidos – nunca foi prefeito de Murici, mas já é tido como franco favorito ao cargo em 2012.

Mas nem tudo são flores no seu caminho. O atual prefeito do município da Zona da Mata é Remi, também Calheiros, que, em tese, pode disputar a reeleição. Para que Olavo seja o candidato, entretanto, o atual prefeito teria de renunciar ao mandato (segundo informou ao blog um conceituado advogado eleitoral. Citou como exemplo o casal Garotinho, no Rio de Janeiro).

Em tempo: Remi, se vingar a proposta, será candidato a vereador.

Postado às 10:13, Ricardo Mota 24 comentários postado em Geral |
23/06/2011 O subemprego sobre duas rodas

O texto abaixo, foi publicado neste blog em 17 de abril de 2009. A situação narrada só piorou. Na última quarta-feira, o Hospital da Restauração do Recife (o HGE de lá) estava com 90% dos leitos ocupados por acidentados em motocicletas. A tragédia assume números impressionantes. Resolvi, então, republicá-lo.

É com espanto e até um com certo desânimo que eu vejo a celebração do anúncio feito pelo governo federal de reduzir o IPI das motocicletas como sendo uma medida de grande alcance social. É verdade que esse tipo de veículo virou instrumento de trabalho para milhares de pessoas – jovens, principalmente – que não têm emprego, nem qualificação profissional. Não menos verdadeiros são os números da tragédia diária no trânsito de todas as cidades brasileiras, tendo a moto como “protagonista” de tantas histórias tristes.

Despreparados para enfrentar a “guerra” do trânsito, principalmente nos grandes centros urbanos; desesperados pela pressão da sobrevivência – os motoboys, quase sempre, ganham por produção-;eles aceleram para a morte no cotidiano de um país que não sabe – nem desconfia – o que fazer com a sua juventude, principalmente. Parecem suicidas a buscar nas ruas o instante último de uma vida sem sentido. 

A média brasileira de mortes em acidentes envolvendo motocicletas é espantosa: 6.700 por ano. Os “pilotos” que sobrevivem, encaminhados principalmente aos hospitais públicos de urgência e emergência, têm um custo médio de tratamento de R$ 50 mil – cada um deles.

A cidade de São Paulo possui as estatísticas mais precisas sobre essa carnificina diária, e elas não deixam dúvidas de que o problema é de Saúde Pública (com maiúsculas, mesmo): seis em cada dez acidentes de trânsito na capital paulista envolvem motos; sete em cada dez atendimentos hospitalares com amputação de membros – decorrente desse tipo de acidente – têm os motoqueiros como vítimas. (Também nas rodovias, os números já são preocupantes: foram 1.015 acidentes com motos só na Via Anhanguera, no ano passado).

O país gasta muito com esta tragédia cotidiana, e, mais do que tudo, desperdiça vidas na plenitude do vigor físico – são os jovens, principalmente, que morrem nas ruas de todas as grande cidades brasileiras, ou nos leitos das emergências hospitalares públicas. Para resolver uma questão  social e econômica, que tal eliminar, literalmente, o problema? Uma pergunta que pode parecer cruel, mas crueldade maior é não querer enxergar as consequências de ações demagógicas meia-sola.

A situação em Alagoas? Os dados coletados pelo HGE e pelo Detran mostram que o quadro em nada difere de São Paulo. No ano passado, aconteceram 2.034 acidentes envolvendo motocicletas no estado, contabilizando-se apenas os que foram registrados oficialmente – pelos prejuízos  materiais e pelos danos à integridade física dos condutores. Mais de dois terços das vítimas se encontram na faixa etária que vai dos 15 aos 34 anos de idade. Os homens são (ainda) os campeões da violência sobre duas rodas no trânsito: 1.788 acidentes envolveram pessoas do sexo masculino, contra 246 mulheres. A maior parte dos casos aconteceu nos domingos : 462 acidentes, seguindo-se o sábado, com 338 acidentes. Sabe-se que no final de semana o tráfego de veículos se reduz, naturalmente, mas os os motoqueiros são ainda mais chamados ao trabalho, para a entrega em domicílio de todo tipo de produto – de remédio a alimentos.

Aconteceu em Maceió o maior número de casos: 1.540 durante o ano de 2008. No interior, embora as estatísticas sejam menos precisas, seguramente Arapiraca lidera o ranking de acidentes com motos – lá existem até as mototáxis, um absurdo concebido em nome da sobrevivência financeira de jovens, na maioria, sem perspectiva de futuro.

No país em que “a saúde pública beira a perfeição”, milhares de vidas são ceifadas graças a uma iniciativa de “grande alcance social”: o PAM – Programa de Aceleração dos Motoboys. O que parece hoje, com franqueza, um atalho para a morte ou a para a incapacitação ao trabalho.

Postado às 11:19, Ricardo Mota 15 comentários postado em Geral |
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